Meses em que a tarde dura uma hora a mais movimentam o faturamento de restaurantes e lanchonetes. Para o setor, decisão não pode ser pautada apenas pelo fim da economia de energia

Técnicos da área de energia do governo federal afirmam que não há mais economia de eletricidade com a continuidade da política do horário de verão. Porém, terminar para sempre com essa medida causaria um impacto extremamente negativo para pelo menos um setor da economia, o do turismo. No segmento de bares e restaurantes, acabar com essa uma hora a mais no fim da tarde ao longo de quatro meses pode resultar em perda de empregos, demissões e queda no faturamento.

Mesmo dentro do governo federal ainda há incertezas quando a necessidade de acabar com o horário de verão neste momento. Autoridade do governo consultada pela Gazeta do Povo avalia que o momento para interromper essa prática não é favorável, pois há muitos assuntos polêmicos que já estão em discussão, sendo desnecessária a criação de uma nova polêmica neste momento.

Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), criticou a possibilidade da extinção do horário de verão. Os bares e restaurantes empregam 6 milhões de pessoas em todo o país e devem gerar um faturamento de R$ 166 bilhões neste ano. Os meses do horário de verão são fortes para o setor e é quando mais se gera empregos. Sem a hora “mágica” do happy hour, o segmento teme reduzir contratações.

“O setor perde muito. O horário de verão é muito bem-vindo para o nosso setor. Ele nos ajuda a promover uma coisa que é muito importante, o happy hour. A uma hora a mais proporcionada pelo horário de verão traz o brasileiro para a rua, coloca o brasileiro num astral positivo. Ele é positivo para a sociedade, para nosso setor, no faturamento e na geração de empregos”, afirmou. “Esses quatro meses são muito mais fortes para a gente, em termo de faturamento, do que outros períodos do ano. E o horário de verão contribui muito para isso”, avaliou.

A possibilidade de o governo federal acabar com o horário de verão é concreta, com a Presidência da República avaliando o assunto, conforme antecipou a Gazeta do Povo. A justificativa do Ministério de Minas e Energia é que a medida perdeu sua função e não mais traz economia de energia.

A falta de debate com outros segmentos da economia além da área energética foi criticada por Solmucci. “Seria uma coisa muito ruim mexer nisso, ainda mais abruptamente. Não entendo como se falou tanto que o horário de verão era bom, durante tantos anos, e agora não é mais. Esse horário tem algo de mágico, pelo lado socioeconômico. O Brasil precisa de mais planejamento para fazer mexidas de impacto tão amplo como essa. Não se pode fazer assim de forma rápida. Teria de ter planejamento”, afirmou.

Benefícios do horário de verão acabaram ou governo demorou a bordar o tema?

Os defensores do fim do horário de verão dentro do governo apontam que atualmente o aumento da carga elétrica na madrugada é praticamente igual à redução da carga na ponta noturna, ou seja, não há grande variação durante o dia que justifique a mudança de uma hora no relógio.

Isso aconteceu pelo maior uso de equipamentos de ar-condicionado e também de lâmpadas e aparelhos elétricos mais eficientes, que consomem menos energia. Além disso, hoje existem cada vez mais usinas térmicas gerando constantemente, com os custos já previstos na gestão do sistema.

Especialista de fora do governo confirma a análise de que o perfil de consumo mudou, o que elimina o impacto positivo do horário de verão para a energia. Helder Sousa, gerente Comercial e de Novos Negócios da TR Soluções, empresa especializada no cálculo de estruturas tarifárias, afirmou que a análise dos dados do consumo de energia desde 1999 até hoje mostram que, desde 2009, a ponta de carga está ocorrendo no meio da tarde, das 14 às 16 horas, e não mais das 18 às 20 horas, como ocorreu até o começo da década de 2000.

Apesar de pequeno, o benefício do horário de verão existe e se soma à tradição e cultura, além de refletir na preservação do meio ambiente. Essa é a avaliação de João Carlos Mello, presidente da consultoria Thymos.

“A economia com o horário de verão sempre foi de 3% a 5% do consumo de energia. Vai se percebendo que o ganho está hoje em dia mais para 2% ou 3%. Está trazendo algum benefício, mas não é aquele estupendo do passado. Há pesquisas de que a população gosta da medida. Traz alguns incômodos, como para a programação de TV e o tráfego aéreo, mas os benefícios se sobrepõem aos malefícios. Acho que deveria continuar, mesmo com o ganho mais reduzido, pois é um hábito. O ganho, mesmo que pequeno, evita que se tenha de ligar térmicas. Isso de alguma forma tem redução de combustível e um ganho para o ambiente”, afirmou Mello.

As distribuidoras de energia avaliam que a política pública traz benefício, mas que ele é “irrisório”. “Para as distribuidoras não faz muito diferença acabar com o horário de verão. A economia de energia é irrisória. O que se deixa de consumir num determinado horário passa para outro horário. Não tem nenhum significado muito grande”, afirmou Nelson Leite, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).

Mas, afinal, é bom ou ruim?

Mas por que a medida durou tanto tempo, se não é mais eficaz desde 2009? Não há mesmo nenhum benefício energético com a continuidade do horário de verão? E o pequeno benefício que se alegava ter com a medida, será perdido?

Nos últimos anos, o Ministério de Minas e Energia e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) divulgaram resultados positivos com a manutenção do horário de verão. A economia anual com essa política variou de R$ 405 milhões a R$ 145 milhões por temporada. Em energia, o horário de verão resulta numa economia de cerca de 2,5 mil MW e algo em torno de 4,5% do consumo elétrico do país.

Mas há outros custos que o horário de verão reduzia e que eram divulgados como benefícios da medida, que chegariam a R$ 7 bilhões ao ano. “As análises técnicas demonstram que essa redução de demanda de ponta evita investimentos da ordem de R$ 7 bilhões, que seriam necessários para construir usina que fornecesse a energia adicional no horário de pico. É a mesma lógica que faz o sistema escolar operar com turnos, o que permite atender um número maior de estudantes com o mesmo número de escolas”, afirma o Ministério, em seu site, no link sobre o horário de verão.

Em anos anteriores, o governo também destacou a economia de água dos reservatórios das usinas hidrelétricas no período. Em 2015, foi divulgado que o ONS concluiu que a medida proporcionava ganho de armazenamento de energia em forma de água nas hidrelétricas equivalente a 0,4% no sistema Sudeste e Centro-Oeste e 1,3% no sistema Sul.

Em 2013 e 2011, o governo destacou que o horário de verão evitou um gasto de cerca de R$ 200 milhões a mais com as usinas termelétricas (em 2012/2013) e de R$ 30 milhões (2010/2011). Porém, nesse período a política de bandeiras tarifárias, que hoje é adotada e reflete o custo dessa geração, ainda não estava vigente.

“Os principais benefícios da redução de demanda no horário de ponta, além da redução dos investimentos no sistema elétrico, são o aumento da segurança operacional, decorrente da diminuição dos carregamentos na rede de transmissão; maior flexibilidade operativa para realização de manutenções e redução de cortes de carga em situações de emergência no sistema elétrico e a redução dos custos de operação do Sistema Interligado Nacional (SIN)”, defende o MME, em texto informativo sobre o horário de verão, publicado em 2016.

Fonte: Gazeta do Povo