Com a inflação corroendo o poder de compra das famílias, um número cada vez maior de pessoas está recorrendo a uma estratégia para fazer as despesas com refeições caberem no orçamento: compartilhar os pratos em restaurantes à la carte, ou optar por porções menores, que têm preço mais baixo. E não são apenas os consumidores que embarcaram nesse movimento. Para se adaptar ao cenário, empresários estão remodelando os planos de negócio e oferecendo opções ao gosto da clientela.

Bruno Douglas Lopes, 29 anos, proprietário de uma hamburgueria em Brasília — que também serve refeições —, criou uma linha de pratos executivos “kids”, voltada para o público infantil. No entanto, a novidade tem atraído mesmo os adultos. “Ao substituir um prato maior por outro menor, o consumidor economiza até R$ 17,40. Os clientes estão fazendo o possível para aliviar o bolso. Cada vez mais, eles perguntam se aceito vale-refeição e parcelo a conta no cartão de crédito”, afirma.

 

Para quem divide a comida, o cálculo é simples: quanto mais pessoas, mais diluído fica o custo final da refeição. Que o diga o analista de sistemas Leandro Lacerda, 35 anos. Ele e outros seis colegas partilhavam na última quarta-feira duas porções do tradicional baião de dois de um restaurante na capital federal — situação que tem sido cada vez mais comum para o grupo. “A quantidade é farta. E, mesmo pedindo bebida, a conta não sai por mais de R$ 30 para cada um”, disse Leandro. “Às vezes, vamos em cinco e pedimos só um prato. Geralmente, um sempre acaba comendo menos, e outro mais”, explicou Victor Souza, 24, integrante do grupo.

 

Promoções

 

O gerente do restaurante, Oscar Korb, 48, avalia que a demanda pelo baião de dois cresceu pelo menos 20% em um ano. “Como custa entre R$ 45,90 e R$ 63,90 — dependendo do tamanho da porção —, e alimenta um número considerável de pessoas, o prato tem sido uma opção para quem quer economizar”, pondera. A maior procura pelo alimento mudou a estratégia de vendas da casa. “Antes, vendíamos mais petiscos à noite. Agora, com mais gente vindo jantar, vamos apostar em promoções, como dose dupla de chope, para atrair ainda mais a clientela”, destacou.

 

A opção por dividir as refeições está disseminada no comércio de alimentação. Mesmo as grandes empresas estão observando esse movimento, como a rede Outback. Nos últimos dois anos, a opção por pratos criados com o conceito exclusivo de compartilhar cresceu cerca de 20%. “Houve uma migração dos clientes de escolhas individuais para pratos que podem ser divididos com amigos e familiares”, disse o presidente da companhia no Brasil, Salim Maroun. “Muitos que estão na casa dos 30 anos nunca tinham ouvido falar de inflação tão alta ou visto sua moeda desvalorizada.”

 

A observação de Maroun não é à toa. Em 2015, o dólar ultrapassou a barreira dos R$ 4, algo inédito desde a implementação do Plano Real. O encarecimento da moeda norte-americana gerou maior pressão de custos em toda a cadeia produtiva, principalmente em supermercados e prestadores de serviços no ramo de alimentação. O reajuste de tarifas administradas, como energia elétrica e combustíveis, trouxe mais impactos às despesas operacionais dos empresários, que repassaram os aumentos para os preços.

 

Aceleração

 

Com isso, o custo de vida mostra a maior aceleração em mais de uma década. Na prévia da inflação de fevereiro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) registrou crescimento de 10,8% no acumulado de 12 meses. Os gastos com refeição subiram 10,9%, a maior alta desde quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) modificou a metodologia da pesquisa. Por isso, a divisão de pratos não foi suspresa para o economista-sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes. “A estratégia das famílias é driblar a carestia onde for possível”, analisou.

 

A disparada dos preços está tão intensa e disseminada que pouco adianta trocar um restaurante por outro, relatou o analista de sistemas Júlio Silva Neto, 34. “Almoçar em um self-service ou fazer uma refeição de prato executivo não está mais valendo tanto a pena”, afirma ele, que diz desembolsar até R$ 40 por um prato individual. Por isso, sempre quando pode, ele opta por dividir o almoço com alguém.

Mal menor

Para o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, o movimento é natural, dada a situação da economia. "As famílias estão com o orçamento apertado e se pautando pelo custo-benefício. Querem manter experiências positivas comendo fora de casa, mas com ajuste no bolso", analisou ele, que vê a tendência como um mal menor. "Está dando tempo para os empresários se adequarem à realidade. Melhor os consumidores dividirem pratos do que o setor conviver com uma fuga de clientes", enfatizou.

 

Fonte: Correio Braziliense